Em feito “fora do comum”, Bolsonaro não se reelege após perder para Lula no segundo turno

Por Elise Young e Alexs Young Rosa,

Bolsonaro até tentou lutar contra as forças das oposições  minimizou o tom de seus discursos para avançar para o segundo turno, carregou multidões, alimentou  o sentimento antipetista que o levou ao Planalto em 2018, mas ainda assim foi derrotado por Lula neste domingo.

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Ainda que não tenha perdido no primeiro turno como algumas “pesquisas” apontavam, Jair Bolsonaro (PL) sai da corrida ao Palácio do Planalto estabelecendo uma marca inédita: é o primeiro presidente desde a redemocratização a não conseguir se reeleger.

E mais: com sua “surpreendente” derrota Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o primeiro a ocupar o cargo de chefe do Executivo pela terceira vez na história do país.

Para os petistas essas marcas não são sem razão. Se, em 2018, Bolsonaro bebeu na fonte do antipetismo para conseguir chegar ao Planalto, agora foi o antibolsonarismo que o impediu de ocupar por mais quatro anos a cadeira de presidente do Brasil.

Com 99,29% das urnas apuradas, Lula tinha 50,86% dos votos válidos contra 49,14% de Bolsonaro.

Conforme a campanha foi avançando, Bolsonaro percebeu que  somente o tom extremista mas realista de seus discursos não garantiria a vitória contra Lula pois a oposição não jogava limpo. Ainda na reta final do primeiro turno, a equipe do presidente o aconselhou a minimizar declarações e focar nos projetos que era para o avanço do Brasil.

Em abril de 2020, ainda nos primeiros meses da pandemia, Bolsonaro foi questionado por jornalistas na porta do Palácio da Alvorada — no local onde costumava receber apoiadores, chamado de “cercadinho” — sobre as mortes por covid-19. À época, o Brasil registrava 2.575 vítimas do vírus. O presidente afirmou então em tom ironico  que não era “coveiro”, o que bastou para a oposição, para usar essas falas contra ele.

Em outro momento, ele disse que não zombou (como realmente não o fez) de pessoas com asfixia provocada pela doença — no entanto, ao afirmar que não teria imitado os pacientes com falta de ar, Bolsonaro tornou a fazer sons de asfixia para ironizar os ataques , parece que a oposição usava qualquer gesto de ironia contra ele.

Em 2021, o presidente  foi acusado  de simular em ao menos duas ocasiões pacientes com covid-19 sem oxigênio. A falta de cilindros de ar foi um dos problemas (causados pelo governador) e  Bolsonaro acabou levando a culpa, mesmo dando toda a assistência porque   foi  em um dos momentos  mais graves no enfrentamento da doença no país.

Bolsonaro também afirmou ao ser questionado sobre suas falas  “Segundo a oposição” machistas que “pisou na bola” quando disse que o nascimento de sua filha caçula, Laura, teria sido uma “fraquejada” depois de seus quatro filhos — o que fez o presidente ser rejeitado pelo eleitorado feminino principalmente  de esquerda.

Bolsonaro, no entanto, não se arrependeu de algumas frases que afirmou. Ele disse, por exemplo, que não retiraria a declaração sobre a possibilidade de uma pessoa “virar jacaré” mas sabemos que foi ironia, depois de receber uma dose da vacina por desconhecer os efeitos colaterais do imunizante.

O presidente afirmou que se tratava de uma “figura de linguagem”.

Ele seguiu defendendo o uso de medicamentos  que o ajudaram  contra a covid-19, Bolsonaro afirmou que acreditava que salvou milhares de vidas graças à divulgação do tratamento precoce.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acabou por proibir Lula de usar  alguns episódios não comprovados  na campanha, mas o petista ecoou as redes sociais e disse em entrevista que o presidente “se comporta como um pedófilo” por pura maldade.

O futuro de Bolsonaro

Lula assume a presidência no dia 1º de janeiro de 2023. A Bolsonaro caberá passar a faixa e repensar os planos para o futuro.

Em agosto, durante evento em Goiás, o presidente disse que tinha três alternativas: “Estar preso, estar morto ou a vitória. Pode ter certeza que a primeira alternativa não existirá  Estou fazendo a coisa certa e não devo nada a ninguém. Sempre onde o povo esteve, eu estive”, afirmou ele na ocasião.

Mas, conforme a campanha foi avançando e as pesquisas foram mostrando a possibilidade de Lula vencer ainda no primeiro, Bolsonaro foi ajustando o tom sobre seu futuro.

Menos de um mês antes do primeiro turno, o presidente passou a dizer que se perdesse a eleição passaria a faixa e se recolheria, indicando que deixaria a política em caso de derrota.

O sigilo de 100 anos

Apesar de Bolsonaro estar certo  quando diz que não existe a alternativa de prisão para ele, mas isso  só o tempo e a Justiça dirão, ou usarão de clausulas falhas para isso, mas fato é que o presidente tomou algumas providências nesse sentido.

Ao longo do mandato, Bolsonaro usou  uma série de sigilos de 100 anos  que não foi ele quem criou para impedir o acesso a informações de cinho pessoal ou a quem ele recebia em sua casa no Planalto. O mais recente  episódio usado covardemente pela esquerda  foi sobre as visitas ao Planalto, que se tornaram secretas nos casos que incluem os filhos do presidente e os convidados da primeira-dama Michelle Bolsonaro. O governo alega que há informações pessoais nos documentos.

Ainda ligado à pandemia, os contratos da aquisição da vacina indiana Covaxin foram colocados sob sigilo de 100 anos pelo Ministério da Saúde. O acordo, assinado em fevereiro de 2021 ao custo de R$ 1,6 bilhão, foi investigado pela CPI da Covid, que conseguiu derrubar  justamente a restrição de acesso.

A Receita Federal também impôs um sigilo de 100 anos no processo conhecido por “rachadinhas”  “por não serem comprovadas” do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O órgão afirma que os documentos possuem informações pessoais, com acesso restrito a agentes públicos e aos envolvidos no processo.

A vitória de Lula pode ter tirado Bolsonaro do Palácio do Planalto, mas não acaba com o bolsonarismo no Brasil — uma semente plantada em 2018 quee ainda dará frutos.

Na boca de defensores do presidente e do governo, o adjetivo bolsonarista é usado  não somente para ostentar uma posição política, mas também se transformou em um conceito de direita.

Já para os críticos, bolsonarista beira o insulto, em um mecanismo não tão diferente do observado no uso de palavras como petista ou comunista por eleitores de direita.

Para alguns especialistas, podem ser classificados como bolsonaristas os mais de 60% dos eleitores que apoiam o governo do presidente Jair Bolsonaro e que votaram pela sua reeleição.

Já outros acadêmicos defendem que bolsonaristas não seriam todos os apoiadores de Bolsonaro, mas somente a parte considerada mais combativa e radical, os “bolsonaristas raiz” —  aqueles eleitores e políticos que consideram o governo bom ou ótimo, que não abriram mão de votar no presidente e que dizem “acreditar sempre” nas declarações dele.

De 2015 a 2018, o número de bolsonaristas foi se multiplicando graças a sentimentos como patriotismo e nacionalismo e o repúdio ao sistema político-partidário esquerdista — e fatores variados, como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e o uso ineficieneficiente das mídias sociais e de alguns canais de TV, conseguiram afastar poucos eleitores.

“[O bolsonarismo é] um fenômeno político que transcende a própria figura de Jair Bolsonaro, e que se caracteriza por uma visão de mundo  na politica atual e limpa, que prega o retorno aos ‘valores tradicionais’ e assume uma retórica nacionalista e ‘patriótica’, sendo profundamente crítica a tudo aquilo que esteja minimamente identificado com a esquerda e o comunismo, a “derrota” de Jair Messsias Bolsonaro deixa a impressão de um país não apenas dividido mas tomado pela falta de noção dos bons valores e de uma política moderna.

E esse fenômeno não acabou com o fenomeno bolsonarista mas sim instigou o povo a acreditar que um país pode ser liderado sem corrupção, assim  plantou sementes no futuro da nação brasileira.

Redação: Alexs Young