Governo do Paraná suspende instalação de pórtico de pedágio em perímetro urbano de Rolândia após impasse técnico e pressão regional

Por Luciene Gallo.

A Secretaria de Infraestrutura e Logística do Paraná (SEIL) e o Departamento de Estradas de Rodagem (DER/PR) anunciaram a suspensão da instalação do pórtico de cobrança automática previsto para o perímetro urbano de Rolândia, no Norte do Estado. A decisão foi tomada após reuniões técnicas com a concessionária responsável pelo Lote 4 das novas concessões rodoviárias, o Grupo EPR, e atende a demandas apresentadas por autoridades municipais, entidades regionais e representantes do setor produtivo.

De acordo com comunicado oficial assinado pelo secretário de Infraestrutura e Logística, Sandro Alex, e pelo diretor-presidente do DER/PR, Fernando Furiatti, a concessionária deverá retomar o local originalmente planejado para a cobrança, próximo à antiga praça de pedágio em Arapongas. A medida busca evitar impactos negativos ao Distrito Industrial e ao trânsito urbano de Rolândia, que poderiam ser agravados pela localização anterior.

Contexto: mudanças no modelo de pedágios no Paraná

O episódio ocorre em meio à implantação do novo modelo de concessões rodoviárias no Paraná, criado após o encerramento dos contratos antigos, vigentes desde a década de 1990. As concessões anteriores foram alvo de críticas recorrentes ao longo dos anos, principalmente relacionadas a tarifas elevadas e à execução parcial de obras previstas em contrato.

Com o fim dessas concessões em 2021, o governo federal, em parceria com o Estado, estruturou um novo sistema baseado em lotes regionais, com regras que preveem maior fiscalização, cronogramas rígidos de investimentos e disputas em leilões que combinam desconto tarifário e aporte financeiro. O objetivo declarado foi garantir tarifas mais equilibradas e assegurar a realização das obras de infraestrutura prometidas.

Lote 4: investimento bilionário e impacto regional

O Lote 4, arrematado pelo Grupo EPR no final do ano passado, possui 627,52 quilômetros de rodovias que atravessam regiões estratégicas do Norte, Noroeste e Oeste do Paraná. O pacote prevê investimentos estimados em R$ 10,8 bilhões em obras (Capex) e R$ 5,6 bilhões destinados à conservação e operação (Opex) ao longo do contrato.

As rodovias conectam importantes polos logísticos e produtivos, ligando Cornélio Procópio a Guaíra e Maringá a Nova Londrina, impactando diretamente 33 municípios. A malha é considerada essencial para o escoamento da produção agrícola, pecuária e industrial, sendo vista como eixo fundamental para o desenvolvimento regional.

A assinatura do contrato está prevista para o dia 6 de fevereiro. No entanto, a formalização não significa início imediato da cobrança de tarifas. Após a assinatura, a concessionária terá prazo de até 30 dias para iniciar serviços iniciais, como recuperação do pavimento, melhorias de sinalização, adequação da drenagem e implantação de serviços de atendimento ao usuário, incluindo ambulâncias, guinchos e inspeção de tráfego. A cobrança somente será autorizada posteriormente pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Impasse em Rolândia mobilizou lideranças locais

A controvérsia teve início no dia 28 de janeiro, quando máquinas começaram a atuar na BR-369 para a instalação do pórtico automático sem comunicação prévia às autoridades locais, segundo relatos da prefeitura. O prefeito de Rolândia, Ailton Maistro, afirmou ter sido surpreendido pela movimentação e solicitou estudos técnicos para avaliar impactos urbanos e econômicos.

Entre as principais preocupações estavam o aumento do fluxo dentro da cidade, possíveis prejuízos ao Distrito Industrial e dificuldades adicionais para trabalhadores que utilizam a rodovia diariamente. A Associação dos Municípios do Médio Paranapanema (Amepar) também se manifestou, com o presidente da entidade e prefeito de Cambé, Conrado Scheller, defendendo revisão da localização e ressaltando que a região não aceita “reviver o passado de tarifas abusivas e estradas clandestinas”.

A pressão política e técnica resultou na reavaliação do projeto. Segundo a nota conjunta da SEIL e do DER/PR, a concessionária concordou em modificar o planejamento e comunicará formalmente a ANTT sobre a decisão.

Novo modelo ainda gera debates

Embora o novo sistema de concessões tenha sido apresentado como avanço em relação ao modelo anterior, a implantação continua cercada por debates públicos e políticos. A localização das praças de pedágio e dos pórticos automáticos, especialmente em áreas urbanas, tem sido um dos principais pontos de questionamento por prefeitos e moradores.

Especialistas apontam que o modelo atual busca equilibrar viabilidade econômica das concessões com menor impacto tarifário ao usuário. Ainda assim, há preocupações sobre o número de pontos de cobrança e os efeitos sobre a mobilidade regional.

A mudança em Rolândia é vista como exemplo da influência do diálogo entre governos locais, entidades regionais e concessionárias na adaptação do projeto às realidades específicas de cada município.

Próximos passos

Com a assinatura do contrato se aproximando, a expectativa agora recai sobre o cronograma de obras e a definição futura das datas para início efetivo da cobrança, que dependerá da autorização da ANTT e do cumprimento das etapas iniciais pela concessionária.

Enquanto isso, a decisão de retirar o pórtico do perímetro urbano de Rolândia é considerada uma vitória política e técnica para lideranças regionais, reforçando a necessidade de planejamento detalhado na implantação do novo modelo de pedágios no Paraná.

Edição: Alexs Young Rosa