Por Luciene Gallo.
Na cidade de Mandaguari, um episódio recente reacendeu um debate importante sobre o papel da imprensa na construção de uma sociedade verdadeiramente democrática.
A correspondente deste portal Notícias Paraná de Norte a Sul e comunicadora Luciene Gallo esteve presente em uma reunião do Partido dos Trabalhadores no estado do Paraná, e o que chamou atenção não foi apenas o conteúdo político discutido, mas sim a ausência significativa de veículos de comunicação da região.
Segundo seus próprios relatos, grande parte da chamada “imprensa local”, inclusive aquela que mantém contratos de publicidade com prefeituras — independentemente de alinhamento político, seja com setores de direita ou de esquerda — não esteve presente no evento. A ausência levanta um questionamento inevitável: estaria a imprensa regional deixando de cumprir um dos seus papéis mais fundamentais, que é o de ouvir todos os lados?
O PAPEL DA IMPRENSA EM UMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA
A essência do jornalismo está na busca pela verdade por meio da pluralidade de informações. Isso significa, na prática, ouvir diferentes perspectivas, compreender contextos variados e oferecer ao público a possibilidade de formar sua própria opinião com base em informações completas.
Quando a imprensa se limita a cobrir apenas determinados grupos ou correntes ideológicas, cria-se um ambiente de informação parcial, que pode comprometer o debate público e enfraquecer a própria democracia.
A democracia não se sustenta apenas pelo direito ao voto, mas também pelo acesso à informação diversa, crítica e equilibrada.
UM OLHAR HISTÓRICO: A IMPORTÂNCIA DOS DIFERENTES PONTOS DE VISTA
Ao longo da história, decisões importantes foram moldadas justamente pelo confronto de ideias distintas.
Um exemplo marcante é o processo de elaboração da Constituição Federal de 1988. Após um período de regime militar, o Brasil passou por intensos debates entre diferentes grupos políticos, sociais e ideológicos. Representantes com visões divergentes participaram ativamente das discussões, defendendo interesses variados, o que resultou em um documento amplo, plural e considerado um dos pilares da democracia brasileira moderna.
Outro exemplo relevante pode ser observado no período da chamada Iluminismo, onde filósofos e pensadores divergiam em ideias sobre governo, liberdade e direitos individuais. Foi justamente esse ambiente de debate, de confronto intelectual e de múltiplas visões que contribuiu para a formação das bases das democracias contemporâneas.
Esses momentos históricos mostram que ouvir diferentes lados não é apenas uma prática recomendável — é uma necessidade para o avanço social e político.
A AUSÊNCIA QUE LEVANTA QUESTIONAMENTOS
O fato de eventos políticos relevantes ocorrerem sem a presença da imprensa local revela um possível distanciamento entre os veículos de comunicação e a sua função social.
Quando jornalistas deixam de acompanhar determinados grupos ou reuniões por questões ideológicas, comerciais ou estratégicas, a população passa a ter acesso a uma versão incompleta da realidade.
Mais do que isso: perde-se a oportunidade de questionar, confrontar ideias, esclarecer pontos e enriquecer o debate público.
📌 DEMOCRACIA SE FAZ COM ESCUTA
É importante destacar que dar espaço a diferentes correntes políticas não significa concordar com elas. Significa, sim, cumprir o dever de informar de forma ampla e responsável.
Ouvir centro, centro-direita, centro-esquerda, direita e esquerda é permitir que a sociedade tenha contato com a diversidade de pensamentos que compõem o cenário político.
Isso é democracia.
Democracia é o direito de falar, mas também o dever de ouvir.
UM ALERTA PARA O FUTURO
O episódio em Mandaguari acende um alerta importante: a imprensa regional precisa refletir sobre seu papel e responsabilidade. Em tempos de polarização, o compromisso com a informação equilibrada se torna ainda mais essencial.
A população não pode ser privada de conhecer diferentes perspectivas. E os veículos de comunicação, independentemente de vínculos financeiros ou posicionamentos, devem atuar com responsabilidade, transparência e compromisso com a verdade.
Mais do que uma crítica, o momento exige reflexão.
A imprensa não deve ser instrumento de um lado, mas ponte entre ideias.
E quando essa ponte deixa de existir, quem perde é a sociedade.
Porque sem informação plural, não há escolha consciente.
E sem escolha consciente, não há democracia real.
Edição: Alexs Rosa





