Corre sangue e diesel nas veias de Rocio, motorista de ônibus em Curitiba

Rocio realizou dois sonhos na vida: casar na Igreja e ser motorista

Salete do Rocio, 49 anos, moradora de Fazenda Rio Grande, foi uma entre os 15 trabalhadores que começaram a testar o ônibus elétrico da BYD em Curitiba neste ano. Ela trabalha como motorista há oito anos e percorre cerca de 157 quilômetros diariamente na capital.

Rocio, como é conhecida, sempre gostou de dirigir. O marido, José Élcio, é caminhoneiro. Um dos quatro filhos do casal seguiu a mesma profissão. “A gente brinca que todos aqui têm um pouco de diesel no sangue”, conta, aos risos.

Antes de ser motorista, Rocio trabalhava em um supermercado em Fazenda. Mas inspirada no marido, sempre teve o desejo de mudar de profissão e realizar um sonho incomum: dirigir ônibus.

“Quando eu falava isso, muita gente ria de mim. Meu marido que me apoiou e dizia para eu ir fazer o curso e ir atrás do que eu queria”.

A primeira etapa foi se qualificar como cobradora. Por intermédio de um amigo, conseguiu que seu currículo chegasse até a Autoviação Redentor, uma das empresas que atende a URBS em Curitiba. Deu certo e ela passou dois anos sendo cobradora.

Na sequência participou tirou a CNH “E” e participou de cursos para se tornar motorista, o que ocorreu dois anos depois da contratação em 2011.

Motorista Ônibus Elétrico, Salete do Rocio (Franklin de Freitas)

A primeira viagem
O primeiro trajeto como motorista de ônibus foi na linha Rua Urbana, que vai do Jardim Sant’Anna até o Terminal do Pinheirinho. “Era um sábado. Fiz o trajeto todo, mas atrasei. No horário que era para eu estar no terminal tinha acabado de deixar o bairro”.

Mas quem tem amigos tem tudo. Fulgêncio, o motorista do ônibus em que ela trabalhou como cobradora estava de folga no sábado e acompanhou a viagem para não deixar a colega sozinha.

Na segunda-feira, quando chegou à garagem, Rocio foi logo se explicando para a patroa. “Eu disse que tinha atrasado o trajeto. Aí ela me respondeu assim: ‘os passageiros foram entregues em segurança? O veículo chegou em boas condições?’. Eu respondi que sim. Então ela falou que a gente vai aprendendo com a prática mesmo e eu continuei”.

Dentro do ônibus cabem muitas histórias
De acordo com um levantamento divulgado no site do Instituto de Tecnologias para o Trânsito Seguro (ITTS), feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), homens respondem pela maioria das ocorrências trágicas no trânsito, especialmente os mais jovens.

Mesmo com as estatísticas, há quem torça o nariz quando entra no ônibus e vê que a motorista é mulher. “Eu chorei muito por causa disso. Hoje não mais, porque se a empresa confia em mim é porque tenho essa capacidade”.

Hoje Rocio conduz o ligeirinho Colombo-CIC e também é uma das que testa o ônibus elétrico que faz a linha Interbairros II anti-horário. Dentro de um ônibus cabem muitas histórias e quem dirige é sujeito de todas elas.

Rocio já colocou passageiro para fora por encostar em mulheres. Também já foi surpreendida com bolo de aniversário comprado por quem é usuário da linha e, além disso, fez muitos amigos.

Grupo
Do WhatsApp ao casamento

Quem pega o Colombo-CIC no horário em que a motorista é Rocio tem grande chance de integrar um grupo de WhatsApp criado pelos passageiros. Lá eles ficam sabendo se é dia de trabalho da motorista e também criam vínculos de amizade.

Alguns dos passageiros se tornaram ‘de casa’ para a motorista. Uma delas faz o imposto de renda dela, outros foram até convidados para o casamento religioso – o outro sonho da motorista – que aconteceu em 31 de dezembro do ano passado.

Rocio e José estão casados há 33 anos. Mas não tinham formalizado a união na Igreja. Eles costumavam falar do assunto, mas financeiramente era inviável. Até que souberam que haveria um casamento comunitário na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Fazenda Rio Grande.

O casal se inscreveu, mas só poderiam convidar dez pessoas. Três dias antes da data, José foi hospitalizado e passou por cirurgia de hérnia. O casamento não ia acontecer porque o noivo estava doente.

Porém, o padre Fábio Junior Meira, administrador da paróquia, disse que casaria o casal em outra data: 31 de dezembro. De noiva, a motorista enfim realizou o outro sonho: casar-se na igreja e pôde chamar mais gente, já que a cerimônia era só deles.

Depois da cerimônia todos foram para uma comemoração na chácara de um familiar. Depois dos festejos, Rocio e José pegaram o carro e levaram os amigos dela, passageiros do ônibus, até o terminal do CIC para irem para casa.

“Até no dia do casamento, vestida de noiva, eu estava lá no terminal”, diverte-se.

 

BP